quinta-feira, 12 de março de 2020

"Devaneios" sobre os rumos da corrida de Orientação brasileira

Olá, estimados orientistas.

Desde que a gente entra no mundo da corrida de Orientação, inexoravelmente acaba se deparando com aqueles momentos de reflexão sobre os rumos dessa modalidade desportiva. Estou num desses momentos, principalmente devido à vivência em eventos dentro do Brasil e no exterior e devido à leitura de diversas manifestações nas redes sociais e nos aplicativos de comunicação instantânea (whatsapp e telegram).
De bastante positivo vejo a energia de muita gente empenhada em tornar melhor o nosso esporte. Mas aí também está um lado que merece bastante atenção. A aparente liberdade que a internet e suas ferramentas nos oferece parece estar incompatível com o diálogo mais coerente e assertivo que o assunto exige.
Existem, em minha talvez míope visão, muitos aspectos que, se não forem bem observados, aumentam a probabilidade de regredirmos como modalidade. Talvez eu me perca no pensamento ou escreva algum devaneio, mas vou tentar pontuá-los nos próximos parágrafos.
Ausência de geração de dados - dizem que estatística é a arte de transformar os números a seu favor. Em nosso caso, parece que nem isso estamos conseguindo. A CBO até tem tentado criar um ambiente de governança adequado. Mas o fato é que nosso sistema de gestão não prioriza a geração de dados que favoreçam a tomada de decisões (sobretudo no nível estratégico). Um bom exemplo: algum de vocês sabe informar quantos orientistas tiveram que receber algum atendimento médico durante as provas oficiais de 2019? Quantas competições foram realizadas com resultado superavitário na sua federação? Qual o percentual de orientistas inscritos em categorias fora da sua faixa etária? Qual o índice de participação dos filiados do seu clube nos eventos ofertados? Se você tiver essas respostas, ou ao menos se souber aonde encontrá-las, por gentileza, compartilhe conosco. São de extrema valia. Minha filiação principal é a FODF e tentei trabalhar em um relatório que fornecesse ao menos uma base de dados. Não foi fácil, mesmo sendo o atual Diretor Técnico, obter números. Um dos problemas é que a forma de gestão estava em um nível, digamos, artesanal. Mas conseguimos, por exemplo, conhecer o índice de evasão de orientistas ao comparar os participantes da primeira etapa e os que completaram o campeonato do DF. O clube do Rocha também tratou de criar ferramentas para mapear a participação de seus filiados. Tratei de ler alguns regulamentos e tomei conhecimento de uma portaria da FECORI que tenta organizar os relatórios das provas. Concluindo: temos muitos bons exemplos para copiar (benchmarking puro), e outros tantos para mitigar.
Pouca leitura - a corrida de Orientação é um esporte que exige bastante da atividade intelectual. Mas isso não se resume apenas em decodificar o mapa e comparar com o terreno em si. Aqui no blog e nas minhas redes sociais, utilizo o bordão "Seja inteligente! Pratique a corrida de Orientação", e a hashtag "Citius, fortius, sapiens" (uma adaptação ao preceito olímpico, significando "mais rápido, mais forte, mais inteligente" em tradução livre). Ou seja, considero que devemos exaltar essa característica da Orientação. Mas na prática, tenho visto os praticantes mais preocupados em memes e divulgação de fotos do que na preparação intelectual. Você, que está lendo o blog, é um orientista diferenciado. E provavelmente vai concordar comigo que nossos pares lêem pouco. Meu termômetro são as próprias publicações do blog. As análises de rotas que publico atingem um número pequeno de orientistas. Em outra mão, as publicações com vídeos ou álbuns de fotos atingem picos elevados de visualizações. Também é um fator complicador que muitos bons textos sobre o esporte estão em outras línguas (inglês, espanhol, alemão etc.). Mas isso não deveria ser uma barreira intransponível, já que existem tradutores competentes nos navegadores de internet. Então, resta concluir que a falta de leitura se deve à própria cultura dos nossos atletas. Já se perguntou quantos atletas conhecem ao menos os boletins e os regulamentos dos eventos? Recentemente em um grupo de whatsapp tivemos um excelente debate sobre declinação magnética, bússolas e zonas magnéticas. A conversa foi provocada depois que comentei ter visto jovens atletas brasileiros no Portugal O'Meeting fazendo uso de bússola calibrada para o hemisfério sul. Em conversa com eles, ficou claro que desconheciam que este pequeno detalhe poderia prejudicá-los na navegação.
Preparo físico - No ano passado participei na M40 no WMOC. O mapa da Final A apresentava uma distância próxima de 11,6km. Numa conta básica, é possível avaliar que o vencedor percorreu algo em torno de 12,5km para completar todo o percurso, já que é quase impossível um orientista seguir somente pela linha vermelha. Sabem qual o tempo que ele precisou para vencer a prova? 56 minutos. Isso dá um ritmo (pace) abaixo de 5'/km. Na categoria M70 o mapa possuía pouco mais de 6km e o vencedor precisou de 43 minutos para concluir a prova. Mesmo considerando que as provas de um WMOC são realizadas em áreas que priorizam a navegação, dificilmente conseguiríamos desenvolver velocidade parecida. Talvez pelo fato de termos objetivos muito heterogêneos na prática da modalidade, ou por premiarmos graus de dificuldade B e N, isso acabou gerando uma acomodação que estagnou nosso desenvolvimento em termos de performance.
Sempre os mesmos organizadores e gestores - em que pesem as inúmeras oportunidades de formação técnica para habilitar organizadores, é fácil notar que as figurinhas que montam as provas são bastante repetidas. O lado nefasto é que a pouca oxigenação traz uma acomodação e cria vícios técnicos nos eventos. Muitos competidores, por não atuarem nas organizações, acabam perdendo toda a expertise mais que desejável de entender melhor uma competição de orientação. Por exemplo, porque o traçador optou por colocar em tal área aquele prisma; ou porque o árbitro sugeriu alterações em uma arena ou mapa. Correr é muito legal. Mas se os orientistas se acomodarem, haverá um dia em que não mais teremos quem montar as provas. Por mais amadora que seja nossa modalidade, é importante e necessário que criemos estratégias para desenvolver a todos.
Conhecimento empírico deficiente - ainda na linha dos gestores, percebo uma aparente falta de interesse em adotar ou em acreditar nas experiências que outros vivenciaram. Não sei se é mero exercício de ego, mas muitos se fecham em pequenos feudos e acabam se tornando referências incompletas para muitos entrantes na modalidade. Recentemente, enquanto fotografava um evento, ouvi um organizador contando para iniciantes que "lá na Europa os mapas nas partidas sempre ficam no chão".
Ambiente pouco agregador - para muitos, a corrida de orientação é um esporte no qual você chega com tempo suficiente para se aquecer, faz seu percurso, confere o resultado e deixa a arena. O tão esperado congraçamento, o calor familiar que tanto exaltamos, não parecem ter se tornado uma prática em termos gerais. Entretanto, existem ótimos exemplos de algumas federações que podem e devem ser copiados. Importante é que momentos de encontro dos orientistas vão gerar melhorias significativas se forem bem aproveitados por toda a comunidade praticante. Ao criar um clima amistoso e que incentive as pessoas a estarem juntas, aí sim estaremos atuando em prol da modalidade. A vaidade de uns está afastando muita gente.
Não temos um ídolo nato - nossos atletas de elite não apresentaram, até o momento,  o prestígio, a empatia e o carisma necessários para se tornarem ídolos da modalidade. Assim, nos falta aquela figura que provoca, que emociona, que alegra, que instiga sobretudo os mais jovens a serem, também, ícones do esporte.
Precisamos de orientistas que paguem pela orientação - uma prova de corrida de orientação possui custos elevados. Esses custos são repassados aos atletas. Cada evento tem seu próprio break even (aquele valor mínimo para que o organizador não fique no prejuízo). O grande desafio é ter um número maior de atletas para que os custos sejam diluídos e os valores cobrados sejam atrativos. Ocorre que a realidade é que poucas federações estão conseguindo colocar mais de 200 competidores por etapa. A FOP, em um passado recente, e atualmente a FBO alcançam as 4 centenas de atletas por etapa. Nos demais estados, me parece que há uma enorme ginástica para que os organizadores tenham saldo positivo. Num paralelo, a corrida de rua cobra mais e tem custos menores para ocorrer. Mas mesmo assim, as pessoas pagam mais de 100 reais para participar. Na orientação, temos descontos para família, isenções, e valores mal estimados. Atraímos competidores que não estão dispostos a pagar pelo esporte, ou que não são capazes de. Aí entra a conjuntura econômica e mais uma série de outros fatores. Inclusive não possuirmos bons patrocinadores. Só que o patrocinador quer um bom consumidor. Um paradoxo.

Bom, já escrevi bastante por hoje.
Se você chegou até aqui, espero que o texto tenha te ajudado a, ao menos, criticar e tecer suas próprias opiniões sobre nosso esporte. Se concorda ou não com essas palavras, aproveita o espaço abaixo e comenta. Este post é, inclusive, um teste para confirmar ou não a tese da falta de leitura. Inclusive não vou divulgar nas redes sociais. Vamos ver como será o alcance somente com os compartilhamentos espontâneos.

Seja inteligente! Pratique a corrida de orientação.
Boas rotas  \o/

5 comentários:

  1. Excelente texto caro Kako, concordo com sua visão, como foi dito, as corridas de rua tem um gasto menor e a um custo maior, creio que as parcerias seria grande ajuda no marketing e no financeiro, mesmo existindo o paradoxo do ganha ganha onde tenhamos que ser bons consumidores. No parágrafo onde você fala a pouca leitura por parte dos nossos atletas, é verdade que isso depende muito da cultura, contudo isso pode ser estimulado à cada um, através de boas conversas, trocas de experiências... Fica aqui meu pequeno e simples comentário sobre este excepcional texto, parabéns Kako.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado. Um programa da federação cearense chamado Momento Técnico é uma boa iniciativa para estimular a aquisição de novos conhecimentos e experiências na Orientação. Grande abraço.

      Excluir
  2. Como sempre, você é muito preciso em suas observações meu amigo. Infelizmente a maioria dos dirigentes de nosso esporte não possui essa visão mais ampla sobre o esporte. Na verdade eles querem se manter no "feudo" para que de alguma forma tenham relevancia, e por causa disso, quem sofre é o esporte.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. MA, tenho certeza que somos capazes de mudar esse panorama. Às vezes basta mostrarmos que há uma luz fora da caverna (em alusão a Platão). Como também somos dirigentes, conhecemos parte das dificuldades em enxergar alguns dos ensejos dos praticantes e as necessidades estratégicas da modalidade. Como você bem disse, a amplitude de visão pode ser o remédio.
      Abs.

      Excluir
  3. Vi num dos comentários, alguém lhe chamar de Kako. Eu não o conheço,mas agradeço pela sua iniciativa.
    Eu, convivo na Orientação desde 1985 e fui um dos fundadores da CBO, em 1999. Atleta das Forças Armadas, técnico de equipes representativas do Brasil e Professor de Educação Física.
    Nessa jornada tenho insistido na crença de que estamos órfãos de profissionais da área de marketing esportivo em todas as Federações, a fim de atuar firmemente no binômio adesão/aderência ao nosso esporte, além de um trabalho redobrado junto aos professores de Educação Física e nas escolas.
    Infelizmente, não vejo futuro próspero a curto e médio prazo para o nosso esporte sem que as medidas sugeridas se tornem uma obsceção para os dirigentes do nosso esporte.
    Tenho um projeto em andamento no Rio de Janeiro, desde 1999, com o nome de Se Orienta Rio.
    Aos que desejarem conhecer e discutir um pouco mais sobre o assunto, meu WhatsApp: 21 98132-0448.

    ResponderExcluir

Seus comentários são muito importantes para o desenvolvimento da nossa modalidade.
Obrigado, e boas rotas \o/